Nada mudou

Uma nova estação está por vir! Esse foi o aviso que estava escancarado na janela do quarto. Eu o olhei, tentei entendê-lo, cheguei um pouco mais perto e quando tentei tocá-lo, ele se dissolveu em gotas. Era mentira. Nada de novo estava por vir.

A falta que você me faz

Fazia tempo em que ele não sentia o seu coração bater tão forte. Batia diferente, estava quase rasgando sua carne e saltando pro lado de fora do seu corpo. O coração estava inquieto, alguma coisa estava acontecendo ali dentro e ele não sabia. Tentou aquecer o coração com as palmas das mãos, porém, estavam frias. Tentou respirar pausadamente, mas o coração não aguentava mais esperar. Desesperado ou enfurecido, não soube bem, só sentiu aquela massa meio arredondada se esgueirar por dentro do seu corpo até sair pela sua boca e se jogar ao chão. Pulsou, pulsou e pulsou. Cada vez menos, cada vez parando. Até que parou. E, por benção de Deus, por sorte do destino, ele continuou vivo. No principio sentiu o vazio dentro do seu peito, sabia que faltava algo ali e sabia o que era, mas forçou-se a continuar sem. Agora já era tarde demais, o buraco vazio passou a ser parte dele. E como era interessante! Ele agora podia ser um verdadeiro ator, um copiador da vida, podia sorrir por sorrir! Chorar por chorar! Sentir por... Não. Nunca mais voltou a sentir algo bater.

Fuga

Ele corria desesperadamente, limpando com as costas dos dedos as gotas de suor que pousavam em seus olhos e embaçavam sua vista. Corria demais. Esbarrava nos homens de branco, nos de preto e também nos de gelo. Esses últimos, faziam ele sentir que estava cada vez mais próximo. ''Próximo do quê?'' Gritava esperneava uma voz lá de baixo do seu subconsciente. Muitas vezes era impossível escutar essa voz, já que a outra voz, a mais forte, a confortavelmente linda voz, dizia para ele seguir correndo, se era liberdade e paz que ele tanto desejava. Ele fazia o que ela mandava, claro, não tinha escolha, há momentos em que precisamos de uma voz linda para nos dizer o que fazer e ele tinha a dele. Então, como um cara inteligente que ele descobriu ser, passou a seguir todos os mandamentos dessa voz forte (e linda).

Ele corria.
Não sentia mais suas pernas doerem, porque nem era mais dono das tais que sustentavam seu corpo. Já tinham sido dominadas por não sei o quê, ou quem. Subia degraus. E essa sensação de subir degraus dava à ele a impressão de estar pulando andares, alcançando tetos. E foi isso que ele encontrou quando os degraus acabaram, um teto. Amplo, vazio e frio. Suas pernas pararam, seu suor não. Teu corpo molhado balanceou pra frente e pra trás, e o único sinal de vida dentro da sua cabeça foi um grito, estridente como trovão: ''VAI!'' E ele foi. Para nunca mais voltar. Ou quem sabe, voltar e mais uma vez tentar. Por enquanto, ele apenas foi.

Herói Morto

Quando se perde alguém, não se lembra o porquê e sim quanto tempo faz. Para mim, faz anos, mas ao mesmo tempo parece que nunca o tive. As lembranças são poucas, vagas e misturadas com imagens criadas pela minha imaginação. Uma criança não espera perder teu herói quando ainda nem aprendeu a dizer o nome inteiro, uma criança não imagina o amanhã, vive o hoje. Não guarda lembranças, as tornam realidade. E quando inesperadamente perde o pai, já é tarde pra guardar lembranças. Ele se foi e o que restou foi memórias contadas por outros. E do herói morto, nasce o garoto confuso e perdido, sem auxilio e segurança. Daí então, percebo a falta que ele me faz.

Que Voam

Eu não sou novo por aqui, faz mais de duas décadas que cheguei. Semana passada reparei em uma garota de outro setor que vezenquando passava pelo corredor onde tenho meus afazeres. Ela passava assim...voando, no sentindo de estar sempre nas alturas, num lugar diferente do normal, lá em cima. Parecia fluturar com aquele sapatinho tamanho trinta e seis vermelho, como uma modelo de passarela. Não sei se os outros a viam assim, sei o que meu olhos enchergam e eles se depararam com infinita beleza. Passei três dias apenas a observando, sabendo que não era nem um pouco notado. Até que no quarto dia ela me notou, esbarrou sem querer em meu braço e pediu perdão, sorridente, de uma maneira que só ela sorri. Tive certeza que era ela. Mal dormi a noite seguinte pensando em como seria o amanhã, torcendo para que ela esbarrasse de novo e pedisse perdão de novo e sorrisse de novo. Viveria aquele momento cinquenta, trezentas, quinhentas vezes se possível! Estava muito empolgado, esperançoso, até que... Bom, aconteceu o que não devia. Saí lá pra fora para cuidar dos meus afazeres e pude ver lá na esquina, que ela estava aos beijos com outro rapaz. Naquele momento minha vontade era ser ele, pena eu não poder ser ele. Fiquei realmente triste aquela noite.  No dia anterior, fiz de tudo para não encontrar ela naquele corredor e consegui. Nos outros tantos dias que vieram também foram assim. Eu escapando dela a todo momento. Hoje ela voltou a passar por mim, me deu boa tarde, eu a respondi, mas senti que algo terrivelmente mudou entre nós. E, talvez, o motivo seja a nova garota que entrou esses dias. Essa outra garota, passa assim...voando...

Louco pra Correr

Sim, você me enlouquece. Me transporta pro teu mundo, me deixa sem roupas e sem porquês. Com você perto asim, eu perco a razão. Perco porque sei que com você estou ganhando no amor, estou na vantagem. Melhor estar perdido em teus braços do que encostado em outros. Os outros são apenas pontos de espera, pausas pra respirar. Você é o meu destino final, é por você que eu corro e é por você que eu vivo.

Com você, eu voo.

Preciso aproveitar o tempo que ainda a tenho no topo do meu mundo, precisamos ver as nuvens, o sol, os pássaros, as cidades e suas luzes. Temos um mundo ao nossos pés para apreciar. Estamos voando, levados pela menor brisa ou pela mais forte ventania, não importa pra onde. Importa que estamos juntos.