Imagine só a noite dos apaixonados que se amavam tanto que a lua junto com as estrelas faziam música para acompanhar o amor feito, o amor dito, o amor querido entre aqueles dois apaixonados que se amavam tanto que não paravam de se olhar e se olhavam tanto que decoravam cada linha da íris dos olhos, contaram quantos cílios cada tem e conhecerem de cabo à rabo a alma dos apaixonados que de tanto se amarem se perderam se encontraram se fundiram se fizeram um só e quando o dia chegou trouxe para os apaixonados a realidade bruta das realidades mais brutas, de que tudo aquilo, a dança, os olhos, as almas, o amor, não passou de um sonho sonhado por dois apaixonados que dormiam em camas separadas só que unidas por corações mas ainda assim separadas e distantes e longas e frias e sem você aqui pra eu poder sorrir e me sentir feliz e completo: babaca idiota louco homem perdido e acima de tudo, de todos os picos mais altos, das nuves mais densas e dos planetas mais distantes, apaixonado.
Hoje eu concordo com os que diziam que eu poderia ser bem melhor. E, bom, é só olhar pra mim, eu tô melhorando, eu tô me tornando bem. Eu dúvido que algo freie a minha vontade de ser feliz, vontade essa que aos poucos vai se tornando realidade e eu já não me preocupo mais com o que vem pela frente. Por mim, pode chegar. Vem. Eu vou enfrentar, como sempre tive que enfrentar e se eu cair novamente, terei quem me puxar e levantar. São essas mãos que me transmitem a vontade de viver e são por essas mãos que eu vou até o fim, suando, brigando e, acima de tudo, amando.
É por vocês que eu luto, é pelo juntos que criamos que eu não me perco.
É por vocês que eu luto, é pelo juntos que criamos que eu não me perco.
O barulho da chuva é ensurdecedor quando o que se quer é momentos de sol. Cada pingo um pedaço de alma. Eu os escuto cair e solto um pedaço de mim na tristeza escura. Anseio pelo sol. O brilho do sol, a luz do sol, o calor do sol. Anseio pelo eu que ficou lá atrás, naquele último verão, naquele último novembro, naquele último dia. Então eu espero pelo sol e por mim. Uma hora, um dos dois terá que sair de trás das nuvens e afugentar o cinza triste.
Oxitocina
O meu coração andava quieto demais, calmo, sereno, parado no tempo, esperando por algo que o fizesse pulsar. Foi então que num dia eu encontrei seu sorriso, suas palavras, o tilintar do seu brilho que fez meu coração voltar a pulsar, a se acelerar, a perder-se na intensidade dos bumbos que há tempos não fazia. Agora meu coração anda inquieto demais, sofrendo com os extremos que é sentir-se apaixonado, apegado à outra pessoa. Quando você chega, minha pequena, bem do seu jeito de chegar, nem manso nem direto, apenas chega sem avisar, o meu coração se sente sereno, calmo como o cair de uma folha de uma árvore, os batimentos são suaves e atentos, apenas esperando o momento de descansar ao ouvir suas palavras. Então você fala, sussurra em meus ouvidos juras e verdades que enlouquecem a minha alma, transforma o cair da folha num turbilhão de ventos sem destino, expandido dentro de mim, me tomando por inteiro. Penso que é a felicidade ao te sentir tão junta à mim. Então vem o momento em que você tem que partir, aí meu coração se perde num buraco de pezares, me sinto perdido, incompleto e desolado, mas logo lembro que outra hora você volta, então me refaço por inteiro, coloco o sorriso no rosto e fico pronto pro seu próximo chegar, sentindo a ansiedade para poder te amar e só te amar.
A claridade vinda dos dias ensolarados invadem seu corpo como um veneno, a agonia sentida vem da energia do fogo que contém em cada raio do sol. Por não aguentar tal força dentro de si, esconde-se numa caverna escura chamada mente, ali construiu um castelo escuro rodeado por pedras escuras sob o céu escuro da noite. Fechado pro brilho do que está por vir, ele vive com aquela sensação de morte, mas vive, preso aos seus ferros e algemas, sendo chicoteado por lembranças que pertencem a outras vidas que não mais lhe servem. Atordoado, com o sangue das feridas lhe correndo a pele, ele se joga no calabouço do castelo e espera sentado no chão frio e úmido os monstros que ali moram lhe devorarem por inteiro, pra não deixar nem sombra do que foi ou do que poderia ser.
Quanto à mim, eu vou continuar seguindo a estrada que me levará até o pôr-do-sol. Lá encontrarei amigos, parentes e amores passados. Vou entrar na dança da fogueira, rodar que nem um índio, abrir meus braços pro céu laranja e chorar pra Deus toda a minha alegria. Meus gritos viajarão pelo forte vento e chegará aos ouvidos do meu pai num sussuro de amor.
Não quero mais pisar em espinhos, nem topar em pedras, nada mais vai me fazer sair do meu caminho. O meu destino é feito pelos meus passos, que agora só seguirão adiante.
Não quero mais pisar em espinhos, nem topar em pedras, nada mais vai me fazer sair do meu caminho. O meu destino é feito pelos meus passos, que agora só seguirão adiante.
Bailarina
Deitado aqui na cama, te olhando com esses olhos que brilham enquanto você descansa um pouco seu corpo, eu fico imaginando se todas essas linhas tênues que formam seu corpo nu são realmente de verdade. Levo as pontas dos meus dedos até sua pele, pousando minha mão na curva da sua cintura e então deixo a minha mão viajar pelo seu corpo, deslizando minhas unhas pela sua carne e confirmando que tudo aquilo que está diante de mim é de verdade. Você estremece um pouco, num quase despertar, mas logo volta a sonhar calmamente. Eu, meio paralisado por quase te acordar, solto um suspiro de tranquilidade e volto a admirar sua beleza, que para os meus negros olhos é tão infinita quanto às estrelas no céu. Me levanto, semi nu, e com passos suaves, onde meu pé pisa calmamente no chão gelado do quarto, eu vou andando na direção da cabeceira. Lá encontro um copo de café, já meio gelado, mas ainda assim café e eu o pego, tomo um gole enquanto ando vagamente até a janela do quarto. Ao abrir a janela, meus olhos se contraem por conta dos raios de sol que invadem meu rosto e junto com os raios vem um cheiro de maresia, algo como sal e água juntos, logo depois o som das ondas batendo nas pedras, na praia, no quintal. Quando restabeleço minha visão dou de cara com uma visão linda do mundo lá fora, uma espécie de paraíso, vazio, deserto. Então sorrio por estar nesse paraíso deserto somente com você, deitada entre aqueles lençóis perfumados pelo nosso suor. Me viro de costas pro sol, pro mundo, pro mar e fico a te olhar dormindo, observando o movimento lento que seu busto faz enquanto você respira. Seu rosto tem um ar leve, seus lábios fechados arqueiam num sorriso discreto, suas mãos perdidas entre os lençóis, tudo parece despreocupado e penso que se eu pudesse ler mentes, diria que a sua está debruçada num lindo sonho. Tudo isso faz descer uma lágrima solitária do meu rosto, que desenha uma trilha de pequenas gotas d’água na minha bochecha e se acaba no cantinho do meu sorriso.
Sorriso parecido com o que eu abri ao te ver dançar naquele palco, sob aquelas luzes, de frente pra tantas pessoas, dentro daquela roupa tão linda e tão delicada. Os giros dos seus pés, os saltos e pousos que seu corpo faziam, o sorriso em seu rosto, o brilho em seus olhos, tudo isso me encantou num átimo de segundo. Foi naquele instante que algo aqui dentro que pulsa todos os dias decidiu - não abriu espaço para discussão - que você seria a mulher da minha vida.
A Bailarina dançava sua dança pra sua plateia. A plateia assistia a dança da Bailarina e impassível, ansiava por um erro. Na plateia havia muitas pessoas. Dentre todas essas pessoas, só havia uma que não estava impassível com aquela dança. Era um rapaz vestido num terno casual, perdido naquelas cadeiras. E ele a olhava com os olhos fixos, saltados, cheios de lágrimas e presos aos movimentos delicados que a bailarina traçava. Boquiaberto, ele sentiu, sentiu tanto que voltou todas as noites possíveis para assisti-la.
No último gole do café e na última lágrima enxugada, lembrei da noite em que te esperei do lado de fora do teatro, esperando naquele frio ter a sorte de você olhar pra mim e sentir o mesmo que eu. Então você saiu, dentro de um casaco vermelho, pescoço enrolado num cachecol cinza, sorrindo e acenando para alguém lá dentro. Virou-se na minha direção...
A Bailarina deu de cara com o rapaz, um instante congelado na história dos dois. Foi assim, num cruzar de olhares, num mergulhar de alma e em dois sorrisos que se tornaram um só sorriso. O rapaz sorria por ela estar ali, na frente dele, e a Bailarina sorria por ele ter esperado o momento de estar na frente dela. A dança era do destino, os saltos do coração, os giros dos pensamentos e os pousos... Das mãos. A Bailarina sentiu o toque forte dos dedos dele e sentiu lá dentro do seu pulsar cadenciado de bailarina, que agora acelerava num átimo de segundo, que era ele – aquele rapaz nervoso – o homem da sua vida.
Sento calmamente na beirada da cama, ainda sorrindo, ainda lembrando, ainda sentindo e levo meus dedos ao seu rosto, coberto por alguns fios de cabelo. Retiro os fios, observo seu rosto nu, dormindo, o sorriso discreto ainda nos seus lábios. Pouso meus lábios nos seus, sinto a maciez da sua boca durante alguns segundos e penso, cá dentro da minha cabeça, que eu vou cuidar de você pra sempre, Bailarina, só pra te ver dançar a vida toda.
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