Fantasma
Parado no meio de uma rua, olhando reto, desfocado, apenas olhando reto e pensando em... Pensando em nada. Corpo estático, pele fria, vento frio, noite fria. Sinto meus pelos do braço eriçarem com a ventania que tenta empurrar meu corpo pra trás. Sinto também vultos passarem pela minha direita, pela minha esquerda, por cima de mim, por debaixo e principalmente por dentro de mim. São pessoas. Estão seguindo, indo e vindo, continuando, terminando, morrendo, vivendo, estão sendo pessoas. O frio que me passam é maior do que o frio que vem dos ventos. É um frio que se aloja dentro do meu peito, da minha mente e congela tudo dentro de mim. Por isso o corpo estático, por isso não sigo, por isso sou tão só. Porque as pessoas passam por dentro de mim e depois se vão.
Minha noite
Gotas geladas escorregam pela minha garganta, descem rasgando meu pescoço e me obrigam a fazer uma careta durante alguns segundos. Logo sorrio, alegre, levanto o braço que sustenta uma mão que por sua vez sustenta um copo. Grito, agradeço a não sei o quê e depois volto a tocar a borda do copo com meus lábios. A mesma sensação de novo e a noite segue assim, com cenas se repetindo. A noite é perfeita. Céu estrelado, lua brilhando incessantemente, iluminando toda a escuridão aqui embaixo. É bom apreciar a noite, olhar toda sua beleza e estar agradecido por isso. É muito bom. Porém, o tempo passa e na minha cabeça não é mais noite. É dia, tarde, noite, frio, calor, é uma volta inteira. Tudo gira, eu giro junto. Meu braço é rasgado por uma mão cheia de pontas que tenta me puxar pro escuro. Minha cabeça é jogada num mar marrom. Meus lábios são sangrados por uma gata selvagem. Às vezes minha mente abre os olhos e grita. Eu não escuto, eu sigo. Gosto do que está acontecendo. Me distrai, me faz ser uma pessoa que não sou. Um homem sem sentimentos que sorri, que grita, que parece estar vivendo tudo que há de melhor no mundo. Me sinto num carro em alta velocidade, seguindo numa estrada sem fim, reta, com luzes nas laterais e com amigos gritando, rindo de mim, rindo deles, rindo de tudo. De repente, o freio de mão é apertado, sou jogado pra fora do carro pelo para-brisa, rolo pela estrada rasgando todo o meu corpo, sangrando-o, sinto o carro passando por cima de mim e seguindo até sumir da minha visão. Meus olhos se fecham, minha mente se fecha e apenas as feridas do meu corpo ficam abertas. Deitado ali parece que passou milhares de anos, parece que tomei chuvas, raios e ventanias. Tento abrir os olhos várias vezes, mas o claro do sol não deixa. Quando entardece, consigo abrir e vejo que ainda estou na mesma estrada, jogado no mesmo chão e sozinho. E parece que aguentei por tudo isso. É nesse momento que aparece uma mulher, com seus cabelos negros, seu sorriso contido, seu vestido jogado ao corpo, suas mãos tocando meu rosto, seus olhos fixados nos meus, seus cuidados em mim. Ela me levanta, me segura pelo braço, limpa minhas lágrimas e apenas diz: - Vamos? Num gesto com cabeça, aceito o pedido e continuo a seguir a mesma estrada, acompanhado por ela.
Dois anos e alguns dias.
Dias não são mais dias. Noites não são noites. Sorrisos não são sorrisos. Felicidade não há. Calor não sinto. Frio sinto. Saudade também. Perdido estou. Quero ser encontrado. Tenho um buraco na alma. Falta alguma coisa. Alguém. Viver é dificil. Continuar é complicado. Seguir é o que restou. Que caminhos se cruzem e que eu seja feliz por inteiro. Como ontem, como hoje, como no dia vinte e três de outubro de dois mil e oito.
Sofrer
EU NÃO QUERO MAIS. NÃO AGUENTO MAIS ESSA DOR. POR FAVOR, MEU DEUS, TIRA ISSO DE MIM. ARRANCA ESSE SOFRIMENTO DO MEU PEITO, DA MINHA ALMA. NEM QUE PRA ISSO EU ME TORNE OCO POR DENTRO, NEM QUE EU VIRE UM MORTO-VIVO, MAS TIRA, ARRANCA, MANDA EMBORA. MINHA CABEÇA DÓI, MEU CORPO DÓI, MINHA VIDA DÓI. AS FERIDAS ABERTAS DOEM. AS FACADAS DOEM. OS SOCOS DOEM. PRINCIPALMENTE AS PALAVRAS DOEM. MEUS OUVIDOS PARECEM SANGRAR DE TANTA DOR, MINHA CABEÇA RODA, CONFUSA, PROCURANDO UMA ALTERNATIVA QUE NÃO SEJA O FIM. PORÉM, A ÚNICA ALTERNATIVA QUE TENHO É O FIM. O MEU FIM. NÃO QUERO MAIS SENTIR DOR.
Malandro
E ele vem, com seus jeito malandro de andar, seu sorriso no rosto, seus olhos perdidos e todo o brilho de uma paixão. Vem e logo me enrola com seus braços, tão morenos e fortes. Houve tempo em que meu corpo apenas se despejava sobre esses braços e meu mundo era ali, mas ultimamente estou com pavor de tocá-los. Quando eles me envolvem são como correntes que me prendem e não me deixam ir além do que sou. Os beijos dele são como sanguessugas que sugam toda a minha vitalidade, minhas energias e minha liberdade. Sinto-me sufocada com tantas carícias, tanto afago. Quero voltar para o meu mundo e dizer olá novamente à todos os meus parceiros e parceiras. Quero voltar a tomar sorvete, me lambusar e depois correr atrás das minhas crianças, dizendo que sou o monstrinho. Eu preciso me livrar disso, preciso encontrar algo concreto, que seja forte como eu sou e que me proteja. Se ao menos eu pudesse dizer isso à ele, se ao menos me deixassem mandá-lo embora, se ao menos eu tivesse uma arma e pudesse fazer dela a chave para minha liberdade, matando-o. Essa sensação de não poder é ruim, é humilhante. Me puxa para os mais baixos níveis da impotência e me afunda num poço de lágrimas... Não minhas, lágrimas dele. E como perco a paciência com os choros dele, com a carência e todo a sua insegurança. Como ele conseguiu se tornar uma pessoa tão patética? É isso que acontece com os malandros quando amam? Tornam-se Zés? Será que o amor faz eles sambarem menos quando a música da vida toca? Bom, com o meu malandro é assim. Alias, nem malandro ele é. Agora é um romântico, um Romeu. Morreria por mim, mataria por mim. Coitado. Mal sabe ele que o meu tempo acabou, que minha música se foi e todo o meu amor o deixou. Se ele ainda for malandro mesmo, talvez faça um música sobre a dor que sentirá e será ouvido por milhares ou por minorias, não importa, será ouvido. A falta que você sente não é minha, Malandro. É da música.
Linha, migalhas e o close pro fim
Se até hoje ainda não entendeu porque sou assim, não vai ser agora que vai conseguir esse feito. Agora é a pior hora pra tentar te explicar algo, já que você parece não mais me ouvir, já que você soltou a linha tênue que segurava nosso amor. É muito dificil continuar tentando, minhas estruturas estão sendo destruídas, meu orgulho totalmente ferido e meu coração dilacerado. Você e seu teatro não vão me convencer de que a linha ainda está forte ou que ainda está lá, esperando por nós. Quebrou-se, partiu-se, foi-se. Era uma vez uma linha... Era, porque não é mais. Não existe, não há, não tem. Eu juntei as migalhas dessa linha numa caixa que está guardada não sei aonde. E são elas que ainda me fazem tentar. Porém, cada vez que você demonstra seu cansaço num olhar ou num gesto, jogo uma dessas migalhas fora. Um dia acabarão e nada mais vai nos restar. Nada além do fim.
Pensando
Fico me perguntando como uma pessoa pode se tornar tão babaca ao ponto de afastar todas as pessoas e viver num mundo de amargura... Como faz isso? Pior: como eu ainda a amo? Arranque-me o que pulsa por ti. Ela tem o que é dela, tem o que ela quer. O que ela não quer simplesmente descarta, é jogado fora como um papel amassado sem importância. É tudo na hora que ela quer, do jeito dela, cada vez mais sinto minhas asas serem cortas e a minha liberdade se esvair como as penas que são jogadas ao vento. Não sei pra onde, não sei porquê.
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