Numa versão natural das coisas, essa história começaria no dia em que você olhou pra ele e ele pra você, então vocês dois se apaixonaram, se amaram, fugiram para a cidade grande e conceberam em seu lar um bebê meio gordinho. Mas nada aqui será natural pra mim, nem pra você.
Numa versão mais clara das coisas, essa história começa quando num dia qualquer eu resolvo pegar o que não é meu, uma espécie de furto e por minha causa uma briga imensa é explodida dentro do nosso lar. As imagens daquele dia são claras e estridentes, como os gritos de uma senhora, de um jovem, de dois senhores e os seus gritos misturados com suas lágrimas. Tudo por minha causa. Eram cinco reais, feito de papéis que colam em outros papéis. A minha intenção realmente não foi aquela. Eu, menino pequeno que era, só queria ter a chance de ter algo em abundância, queria completar algo na minha pequena vida. Foi naquele dia que eu descobri a rachadura dentro do meu cásulo. Assustado, como sempre fui, preferi fechar olhos e ouvidos. Perdi tanta coisa...
Agora, se formos pensar de uma forma mais emaranhada do todo, toda essa história é o que nos prende no hoje, nesse hoje que somos presos, nesse hoje que nos falta espaços. Por causa dessa história, hoje não vivemos como queríamos e mesmo assim, é, mesmo assim, apesar desse problema e os que vieram junto, nós ainda achamos tempo pra sorrir e se amar... É o que nos resta.
Eu acordo todo dia torcendo para te encontrar ali perto, um sinal de vida seu, que me faça tranquilizar meu coração. A descoberta desse mal pra mim foi um tiro na alma, e se você se lembra, eu chorava feito criança, com os olhos vermelhos, denunciando o medo que se instalava no meu coração. O medo de perder você pra sempre, de não ter pra quem correr ou quem abraçar. Esse medo está dentro de mim todo dia e todo dia eu tento deixá-lo de lado, mas minha cabeça é grande, ela voa, e eu sempre me pego pensando nisso. Até quando terei você aqui perto de mim pra me proteger? É, me proteger. E olha que a frágil na história é você! Mesmo assim, me protege como ninguém é capaz.
Lembrar do teu sorriso cria dentro de mim uma vontade assim, maior do que eu, de continuar a lutar pelo que acredito. Eu vivo por você.
Anj
E sobe aos céus como um anjo negro maldito por ter dito o que não era pra ser ouvido, e então vive com um sorriso podre no rosto iluminando a alma daqueles que são escuros e negros, fétidos e mortos. Ele sobe aos céus à procura de Deus e chega lá, procurando Deus, achando ninguém, o céu vazio de Deus, cheio de nuvens brancas e trovões negros, o céu sem anjos e pássaros. Pisa no chão do céu implorando por uma energia mágica cósmica adentrar os furos dos teus pés e invadir teu organismo e fazê-lo sentir nem que fosse uma pontada assim de qualquer coisa que seja misturada com a indiferença que nutre pelos outros que não enxergam nada além do que é pra ser visto e principalmente pego. Roda os braços nos chãos dos céus tentando acertar o rosto de um santo, tocá-lo o faria sorrir como nunca sorriu antes, porque eis um milagre, um santo, mas não, nada de santos para ele, apenas a falsa impressão de que a única companhia que tem é sussurrar do vento em seus ouvidos sujos, sussurram algo mais ou menos assim pule, pule, se jogue, o céu é tão vazio quanto o seu coração, o céu é seu lar, mas tu não quer nada disso! Quer mãos e pernas e rostos e salivas e seios e genitálias tocando tua pele sedenta por humanos E ele gargalha enquanto ouve tudo aquilo chegar aos seus ouvidos, gargalha enquanto corre em direção ao precipício e num salto de braços abertos imita um anjo qualquer negro que se joga do céu e vai de cabeça em direção ao inferno, queimando suas penas ao invadi-lo e cair no colo de centenas de anjos também caídos que sentiram a falta de um Deus e fizeram o mesmo que ele, se entregaram a necessidade de ter alguém o empurrando, tocando-o e sendo-o.
Sonhos
Às vezes queria apenas esbarrar você no meio do corre corre e te olhar com os olhos desavisados que logo se prenderão ao seu olhar e mergulharão no fundo negro dos seus olhos, procurando um sinal daqueles que sempre procuramos em certa pessoas, algo que me diga também sinto sua falta, nego e quando eu encontrar vou sorrir aquele sorriso que só você consegue tirar do meu rosto, e você sorrirá porque também encontrará o que quer ao me ver e o que você quer é nada menos do que um refugio, um lugar comum pra onde poder fugir e esse lugar é meu corpo, minhas mãos, meus braços, pernas, coxas, tronco, pescoço, lábios, dentes e olhos. Então nos tocaremos e no primeiro roçar dos meus dedos na sua pele sentirei uma energia como uma corrente elétrica tomando conta rapidamente do meu sistema nervoso e indo pro meu sistema cardiovascular até chegar ao meu coração e fazê-lo palpitar numa velocidade diferente, ora cadenciado, ora acelerado, mas diferente, porque é assim que você faz meu coração se sentir, diferente. E meu espirito ficará diferente ao estar diante do seu, sentirei a luz se sobressair dos meus poros e se misturar com a sua luz no ar que nos envolve e o clima ficará cada vez mais agradável, como sempre foi entre a gente, com sorrisos, olhares, toques, choques, amor e excitação. Quando meus olhos e seus olhos negros já estiverem umedecidos com lágrimas de saudade, minhas mãos viajarão até seu rosto moreno e o acolhera como uma mãe que reencontra o filho fugido do seu verdadeiro lar, então encostarei minha testa morena do sol e do trabalho na sua testa morena do sol e da maquiagem que tanto adora usar, mesmo eu dizendo que não precisava, porque você é linda naturalmente, e nossas testas se reencontrarão ao mesmo tempo em que nossos lábios e nossas línguas e eu sentirei você mais uma vez dentro de mim batendo tão forte, tão forte, que quando meus lábios se distanciarem dos seus, sussurrarei de olhos fechados eu sinto tanto sua falta e isso vai soar mais como um eu te amo tanto... E então gargalharemos, abraçados, juntos, mais uma vez antes que a vida desate novamente esse laço que nos prende esse laço invisível que me faz sonhar quase todos os dias com esse nosso reencontro.
Bêbado
Ando meio bêbado ultimamente. Essa droga, a bebida, essa droga ilusória que me faz pensar que ando flutuando, meio solto pelas ruas do mundo, sem destino e tudo bem se for assim, tudo confuso e duplicado e escuro. Essa droga vem tomando conta do meu corpo e a cada dia que passa estou mais bêbado. Acordo já com aquela tontura bêbada com aquele bafo bêbado e meu bom dia sempre sai bêbado, ou é ‘’dia bom’’ ou ‘’boa noite’’, ‘’boa tarde’’, tantas outras saudações que se misturam e no final não saúdam nada, nem ninguém. Está difícil até pra caminhar, dou mais passos do que devia, piso onde não devia, vou para um lado quando tenho que ir pro outro e o equilíbrio é algo que não tenho mais. Porém busco sempre o equilíbrio quando saio vagando por aí, busco porque é preciso manter certa postura diante dos desconhecidos, diante de quem sempre te julgará pelo seu passo bêbado, seu cabelo malfeito e seus trajes estranhos. O meu problema é que não encontro mais o equilíbrio nem no caminhar, nem dentro de mim. E esse tal do equilíbrio representa um eu idealizado por mim mesmo que nunca existirá, onde sou o que deveria ser, faço o que deveria fazer, ando reto, piso firme. É um sonho que eu bêbado tento alcançar, mas nunca consigo. A distância entre o bêbado e o sonho foi se tornando cada vez maior, como um entrelaçar de dedos que vai se desfazendo, desfazendo, até os dedos não se tocarem e se distanciarem tanto que criam a certeza de que nunca mais vão se entrelaçar de novo, cada um vivendo no seu escuro. Então, eu bêbado assim, mesmo com a certeza de que nunca serei quem deveria ser, vou procurando pelos caminhos mais confusos da mente encontrar algo que me faça ser o que não sou, me faça ter a paz do equilíbrio e quem sabe um dia saúdo o dia que amanhece com o sorriso de um sonhador: andar firme, cabelo bom, roupa certa e o copo vazio.
03:37
Acordado, olhos abertos, mente cansada e músculos exaustos. Procuro uma xícara de café, quem sabe um pão ou uma bolacha de água e sal. É incrivelmente ruim acordar dias atrás de dias sem ter sonhado e descansado e dormido. As noites agora me servem para planejar meu futuro, tão incerto, tão pessimista e negativo, que é preciso planejar a hora exata em que cairei de cabeça no poço sem fim. Acho que nem é preciso falar nos passeios pelos cômodos da casa, não é mesmo? Todo insone que se preze sabe que um tour pela sua própria moradia é um dos melhores programas que se tem pra fazer a noite. Às vezes prefiro caminhar pelas ruas mesmo, paro em uma padaria, tomo um café, mesmo sabendo que tem café em casa, mas o café da padaria vale a pena, por causa do passeio, das luzes, dos olhares, vale a pena por causa da noite. Outras vezes me pego escrevendo que nem um maluco, coisas sem sentido, cartas sem destinatários, músicas sem ritmos e pensamentos difusos, confusos, perdidos e abstratos. Minha mente tem andado meio assim ultimamente, abstrata. A-bs-tra-ta. Palavra estranha, bastante confusa, mas que eu adoro pronunciar. Sai como um elogio da minha boca e fico com vontade de rir ao dizer. Até dou uma gargalhada, mas dentro da minha mente. Um dos motivos que me fazem rolar de rir é a maneira como meus olhos vão afundando dentro do meu crânio, tanto que daqui um tempo, serão duas pedras negras num crânio esticado. Olho no espelho as transformações que o tempo custa em causar na minha aparência e é assustador a capacidade que as horas tem para arrancar de uma pele o brilho e maciez. Sinto-me um velho, daqueles que só querem sentar e esperar a hora certa pra cair duro. Vou balançar na minha cadeira de balanço, deixar a brisa afugentar a poeira do meu rosto e fechar os olhos quando as batidas do meu coração cessarem. Percebam, acabei de planejar, e esse é o meu plano de morte. Sim, é assim que quero morrer. Deve ser feliz morrer assim, tão suavemente. Ou não, morrer deve ser sempre triste mesmo. Mas a questão não é a morte em si e sim todo o ato que antecede o momento da morte. Esse ato, o último ato, esse sim deve ser feliz. Bom, o que eu sei agora, do meu presente, é que ainda não dormi e ainda estou escrevendo cartas sem destinatários, pensamentos confusos e coisas sem sentido. É como dizem ‘’O teu mal é sono!’’ Então, vou lá, deitar e olhar pro teto branco do meu quarto, esperando o momento em que o sono chegará e me fará sonhar e descansar e esperar o amanhã. E se nada disso resolver, bato minha cabeça na parede e desmaio. Boa noite.
Morte
A morte é algo certo, com data incerta. A morte chega num sopro negro e invade os olhos, os ouvidos e as roupas. A morte é cinza, quando chega fica negra. A morte não se cansa, nem descansa, colhe seus frutos, às vezes maduros, às vezes verdes demais, outras vezes até apodrecidos. Às vezes me pego pensando, normalmente quando estou deitado e olhando para o nada, que naquele mesmo instante uma pessoa pode estar morrendo. Uma não, mas dez, vinte, cem, mil pessoas! E isso dói, mas ao mesmo tempo alivia, pois não sou eu que estou sendo levado. Em seguida me vem um pedido, ao meu Deus, para que a morte não me leve e principalmente, não leve as pessoas tão próximas de mim. É difícil saber ou prever, mas provavelmente eu não conseguiria viver – sorrir, pular, dançar, cantar, amar, rodar, cair e levantar – se alguém, um familiar ou um grande amigo morresse. É claro que tenho que de alguma forma deixar algo engatilhado dentro de mim, algo que amenize e me faça suportar a dor de perder quem eu amo e nunca mais vê-lo novamente. Afinal, a morte é certa. Acontece com todo mundo. Até nos sonhos a morte acontece. Noites passadas, sonhei que o pai de um amigo meu morria e nós, eu e ele, assistíamos a morte do seu pai, que era assassinado enfrente à sua casa por ladrões. Um sonho muito inesperado e assustador. Lembro que eu o abraçava enquanto tudo aquilo acontecia e que ele nada fazia, estava paralisado, não descia lágrimas e não se ouvia choro, então eu começava a gritar, pedindo para que ele sentisse algo porque alguém morreu, o pai dele morreu e, droga, isso deve doer mais do que um bocado, deve doer como um tiro que nos mata, não? Foi aí que acordei. Assustado, suado, agradecendo por ser um sonho e desejando não ter outro igual. Eu não sei o que um sonho desses pode refletir dentro de mim, talvez o fato de ter perdido meu pai e desejar que isso não aconteça com mais ninguém. Ou o medo do desapego imediato que meu amigo teve quando perdeu seu pai. A morte é inesperada. Nunca sabemos e nunca saberemos quando nos tocará, quando nos invadirá. Nem quando levará um dos nossos. Precisamos cuidar, precisamos amar, precisamos cultivar nossos laços, temos que ter boas lembranças, bom amores, ótimas amizades, lindos sorrisos e felicidade com quem nos rodeia. Porque, uma hora ou outra, a morte chega, cinza e ao mesmo tempo negra, uma sombra que adentra o corpo e não deixa mais nada.
Meu medo não é a morte. É perder a vida. Vê a diferença?
''Eu sonhador demais, na intranha dor demais
E essa estranha dor é mais do que saudade
É como uma necessidade
De poder ter a certeza de que não era verdade
O que você disse por telefone
Que tava na hora de eu te provar que podia ser seu homem
Que o menino que nem pode sustentar um lar
Nunca seria bom o suficiente pra tu casar. ''
Chuva de Novembro - Projota
E essa estranha dor é mais do que saudade
É como uma necessidade
De poder ter a certeza de que não era verdade
O que você disse por telefone
Que tava na hora de eu te provar que podia ser seu homem
Que o menino que nem pode sustentar um lar
Nunca seria bom o suficiente pra tu casar. ''
Chuva de Novembro - Projota
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