Garoto
É um pulsar baixo, cadenciado, que cresce disforme dentro do cúbiculo enegrecido. É um garoto esguio, magricela, deitado na única cama do cúbiculo e que sente o pulsar estourar seus ouvidos. O sangue desliza suavemente pelas suas bochechas, seu pescoço e mancha a pele amarela pálida colada aos ossos. Ossos brutos, duros, não se partem, pesados e barulhentos. Cada movimento é uma imagem silenciosa, como o voo de um pássaro em câmera lenta. O cúbiculo é a praça, a rua, a lanchonete, o salão de festas, o campo de futebol. O cúbiculo é o caminho a ser trilhado. O garoto magricela sobe na cama e com a força dos seus músculos pobres fica em pé. Abre os braços de pele amarela pálida e sente o sangue caminhar pelo seu corpo. Sente o pulsar forte em sua cabeça descer pro seu coração e depois pro seu estômago e para os joelhos e os pés e volta para cabeça e se aloja na suas costas e como uma ventania forte o empurra no chão e então ele cai. Em pé. Rindo a loucura que o toma, que o impulsiona e o faz correr pelo cúbiculo escuro de braços abertos, dando voltas, piruetas, trançandos os pés, balançando os braços, cambalhotas, empurrões, socos, pontapés, cabeçadas e por fim terminar de cara no chão, com o corpo vermelho de sangue, com o sorriso vermelho de sangue, com a pele vermelha de sangue, com a mente vermelha de sangue, com a alma se esvaindo junto com o seu sangue.
Estocolmo
Eu realmente me sinto muito decepcionado ao lembrar do que passamos juntos. Cada minuto, cada sorriso, cada briga, cada lágrima, foi tudo tão desnecessário. Antes eu lembrava da nossa vida juntos e doía, porque sentia saudades, sentia falta da exarcebada alegria que enchia meu coração de paz, mas hoje, eu sinto pena de mim, por ter gasto tanta energia com uma pessoa que não se respeita. Sinto que toda a nossa história está sendo violentada por seus atos, suas mentiras, seu modo de vida, sinto que toda as minhas palavras tão bem ditas estão sendo jogadas num ralo fétido de uma esquina qualquer, sinto que meu coração de nada vale para você, logo você, que foi a pessoa que entreguei-o durante um tanto de tempo. Pura ingenuidade minha. Pura inexperiência. Meu coração ainda virgem e você se apoderou dela, com um sorriso o violentou, abusou da pureza, do meus deslumbramentos, fez de mim seu capacho e quando cansou, me jogou no frio do chão. É realmente decepcionante olhar para o passado, olhar para o presente, vislumbrar o futuro e saber que não sobrou nada do que vivemos. O que me restou foi a dor, a inquietante dor dos corações que são sequestrados, abusados, partidos e ainda assim continuam apegados aos seus violentadores.
Da Noite Pro Dia
Próximos, quase colados, o sorriso dela está a menos de um palmo de distância e vendo-o de perto, me sinto iluminado por uma estrela. Sinto o doce sabor dos lábios dela misturado com o fervor dos meus desejos profundos. É um beijo. Um selo de amor, um roçar de lábios que mistura paixão amor e tesão. Logo esse beijo nos toma por inteiros e quando menos percebemos, estamos com os corpos colados, nus. Deitados numa cama, enrolados num cobertor. Uma noite inteira rolando num colchão tão macio quanto os seios dela. E quando amanhecer, ainda estaremos acordados, contando histórias e rindo de fatos engraçados que nos fez chegar até aqui. Ela com toda certeza citará alguma piada minha e eu confessarei que desde o primeiro momento em que a vi parada naquela tarde, já pude saber que a desejava imensamente. O sol invade o quarto, o calor invade nossos corações e ainda nus, nos abraçamos, um olhando nos olhos do outro, tentando falar por telepatia o quanto foi mágica a noite que passou. Ela pisca os olhos e sorri. Eu sorrio e pisco os olhos. Momentos depois, ela já está dormindo e eu estou acariciando calmamente o rosto dela, sussurrando baixinho o quanto a manhã está linda hoje.
Se hoje volto a sorrir...
É simplesmente uma tortura olhar seus olhos e não poder mergulhar na escuridão deles. Eu queria poder tocar seu rosto, sentir seus lábios e mostrar a verdade que reside em cada carinho. E quando você sorri, tudo piora. A dor de não tê-la é sufocante, é um rasgo na garganta louca para gritar. Meus pensamentos e sentimentos se confundem, assim como a realidade e os sonhos. Às vezes quando te toco não sei se estou dentro de um sonho ou se vivo aquele momento, pois um turbilhão de sensações me tomam por completo e eu fico entregue à eles, sem força para controlá-los. Sou transportado ao mundo perfeito, criado na minha mente, com leves toques do meu coração. E quando você se distancia, esse turbilhão vai embora e dar lugar ao vazio que é ser incompleto. Metade de mim está em você. Metade de mim existe por você. Cuide do que sou, não maltrate o que aqui dentro tanto prezo e aprecie nossos poucos momentos juntos. Por favor, perceba-os e me saboreie.
Anjo das Cinzas
Carregava um peso dentro de si que não suportava mais. Sentia o corpo pender toda vez que tentava se levantar e aquilo incomodava. Procurava jeitos de aliviar a dor e o cansaço, de esquecer o peso e correr livremente por onde passava. Sabia que era impossível naquele momento, que o turbilhão de sentimentos e sensações ainda residiam dentro da sua cabeça e do seu coração. Louco, confuso, desesperado, paranóico, sozinho, envelhecido, enferrujado, desgastado, quebrado, morto. Era tudo isso. E um pouco mais: Era fraco. Não tinha forças nos ombros, nas pernas, andava rastejando nas ruas, não admirava mais a lua pois seu pescoço era um graveto que não suportava mais todo o peso dos seus pensamentos e por isso, vivia a olhar o chão, muitas vezes até sentia o chão: nos lábios, nos olhos, no pulsar, no frio. Em uma certa noite silenciosa e congelada, resolveu rasterjar-se pelas ruas. Andou por lugares que remetiam ao passado. Tal passado que sempre representou mais felicidade, mais alegria e mais sorriso. Então, andou por lugares nostálgicos e nesses lugares haviam as mesmas pessoas, que antes estavam por lá e que futuramente ainda estarão. Era como se elas esperassem por ele, para olharem para ele e assim, se sentirem felizes. A imagem dele era de provocar dó em qualquer um. Seus olhos tristes, seus lábios rachados, seu nariz torto, suas mãos magras, seus ombros curvados, suas perna trêmulas. Onde há felicidade? Bom, pensavam as pessoas, se um coitado desse ainda saí pela noite e a curti, eu também posso e eu também vou. Sou feliz por não ser essa coisa, por não me rastejar e nem parecer um verme. Elas estavam todas corretas. Qualquer ser humano que não fosse ele, poderia ser mais feliz que ele. E eram, claro que eram! Simplesmente porque não havia um fio de felicidade nascendo, desbotando, corroendo aquele coitado. Ele era movido pela tristeza, pela pena e pela noite. Só que naquela noite, ele foi feliz, por instantes eternos. Enquanto passava por um beco, enxergou uma borboleta azul marinho flutuando sua beleza pelo ar e ao se deparar com tal beleza, um sorriso brotou em seu rosto. Correu. Na verdade, tentou correr já que suas pernas trêmulas e tortas faziam um movimento que não lembravam nenhum pouco uma corrida. Elas se debatiam, mas na cabeça dele ele estava correndo, estava pulando e capturam com sua mão magra a borboleta. Ao abrir a palma da mão, observou que a borboleta se manteve inteira ao se proteger com as suas asas. Então, a borboleta abriu as azas e as bateu, sem sair do lugar. Ele sentiu cócegas e voltou a sorrir. Não, não. Ele estava rindo! Rindo por ainda sentir algo que não fosse aquela melancolia de sempre e ria bastante, ria e pedia mais, dizia para a borboleta continuar e ela o fazia, continuo fazendo até o momento em que ele se deitou na calçada úmida e ficou rindo, olhando para o céu, caminhando seu olhar pelas estrelas até encontrar a lua. Aquela saudade que sentia, foi se esvaindo do peito, pois ali estava ele, admirando a lua em todo o seu explendor natural, abençoando-o com seu iluminar e seu brilho surreal. Ali estava ele, voltando seu olhar para a borboleta que agora sorria, um sorriso negro e forte, um sorriso que virou pó, um pó que tocou a pele do coitado, o queimou, o invadiu por dentro e fez aquele pobre coitado tornar-se o mesmo pó, a mesma cinza, do mesmo ser mágico. Suas cinzas viajaram pelo vento, cada grão cintilando como fadas, cada grão seguindo um caminho, uma ventania e indo visitar lugares e pessoas. Pela primeira vez ele pode estar com todos e em todos. Pela primeira vez pode correr e voar livremente por onde passava. Feliz, iluminado e forte.
Ensaio para a primavera
Tenho sonhando com o dia da nossa estreia: Luzes fracas, pessoas entrando, nós deitados no chão, ansiosos e esperando pela benção do destino, que fará tudo certo até o último segundo dessa Primavera. Nunca me senti tão próximo de um grupo de pessoas, não desse jeito, tão rápido e tão forte. É como se fosse um grande grupo de irmãos, ajudando um ao outro, sem temer, sem julgamento, sem medo. É tudo tão... intimo. Eu sempre fui um ser humano fechado, que guardava pensamentos e sentimentos. Mas com vocês tento fazer o contrário, tento expor, faço de tudo para vocês notarem o quanto sinto e o quanto penso. Quero ser como vocês são! Quero ser bonito, quero ser inteligente, quero ser talentoso, quero ser lutador, quero ser sexy! Eu queria ser um pouco de cada um de vocês. Uma gota de suor, um segundo de um sorriso, uma faísca de um abraço, um fio de cabelo, eu queria ser tudo isso em vocês, com vocês, de vocês, entre vocês. Creio que essa será a melhor primavera de todos para nós! E se não for para vocês, será para mim. Então, desde já, eu agradeço. Muito obrigado, amigos! Por cada segundo ensaiado e força, muita força, por cada segundo apresentado que virá! Nós podemos e nós conseguiremos.
Simplesmente porque somos jovens e amamos o que fazemos. Doce.
Simplesmente porque somos jovens e amamos o que fazemos. Doce.
Eu não tenho muito o que escrever nesses últimos dias. Simplesmente por não ter o que dizer. Porém, hoje aconteceu algo que me fez pensar e sentir, de novo. Eu estava lendo, como de costume, e balançando na rede ao som de algumas músicas, que prefiro não citar os nomes, pois esqueci quais são. Eu estava lendo e de repente, aquela música tocou. Dessa eu lembro o nome, lembro-me também do dia em que a escutei pela primeira vez e da pessoa que estava ao meu lado. Assim, de repente, me veio toda a lembrança que devia estar adormecida lá nos confins da minha mente e eu congelei durante alguns segundos. Meus olhar voltou-se para o meu interior e assistiu com toda nitidez os lances e relances do que me havia voltado a mente. Teve sorrisos, batidas na mesa, cantos, mais sorrisos e até um olhar, um olhar meu, que foi fundo pra dentro dos olhos daquela pessoa e conseguiu durante um milésimo enxergar a sua alma. Eu pude ver o quão branca, o quão ampla e misteriosa era aquele ser, que sorria e batia na mesa. Pude ver o futuro e desejar que se tornasse o presente, num instante, sem muita delongas. Incrivel como depois de muito tempo, como depois de tanto e de tudo, essa lembrança veio a tona e mais incrível ainda, me fez sorrir.
Eu sorri ao lembrar de você. Isso é bom sinal. Isso é o recomeço.
Eu sorri ao lembrar de você. Isso é bom sinal. Isso é o recomeço.
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